sexta-feira, 24 de abril de 2009

Admiro os apaixonados


Admiro os apaixonados,
Aqueles que na passagem efémera pela palete agridoce da vida
Se entregam, corpo e alma, à desventura de amar.

Admiro ainda mais os vencedores dessa batalha
Que é adormecer, nessa caminhada, o lado obscuro do coração e fazer dele almofada

Que serão os outros? Borboletas multicolores?
Bichos que de tanto amar o amor espantam? Seres de encantar a solidão?
O meu amor terminou, mas não a minha paixão.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A primeira flor

Transplantei a primeira flor
Botão de rosa amargurado
De vermelho pálido pintado

Não procurei chuva de prata
Enterrá-la em vasos de lata?
Mil vezes bocas de leão!

Que hei-de fazer?
Diz-me tu, oh homem que regas!
[E esse segredo carregas]

Bebericam-te as pontas dos dedos
Essas flores viçosas
Como se lhe oferecesses a vida.

Que hei-de fazer?
Se o caule não ficou bem profundo?
Se a raiz solta não a fizer vingar?

Um ramo de gardénias
Te entregarei
A ti que és rei

Enquanto não - parto à procura dos jacintos
Que tingem os rios
Mancha azul num mar de tangos

Transplantei a primeira flor
Roseira brava à procura do amor
Mas não do primeiro.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

'Beija-me como se não houvesse amanhã'

'Beija-me como se não houvesse amanhã'

É um vidro rasgado
na casa de banho em limpeza
de um velho armazém do Chiado.

No dia dos namorados - rosas vermelhas
Na 'down town lisboeta' não escapa nem o forreta.

Não é dia de folga para a Olga,
as tardes são passadas a lavar escadas.

Rosas vermelhas e turistas
E a rapariga passou sem dar nas vistas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Pensão Rossio Parque

Na Pensão Rossio Parque as escadas são forradas de vermelho cetim.
Rangem ao passar das meias solas do Sr. Joaquim.
Duas estrelas e meia no frontão; um jardim.

Pensão ligeiramente anacrónica, com chuveiro e estores de correr.
Não corre quem não pode. E está trancado no quarto do fundo [um frenesim].

Pequeno-almoço com sumo de laranja amarga.
E um travo a licor beirão
Que traz a inquilina do rés-do-chão.

sábado, 6 de dezembro de 2008

És muito mais forte do que eu, Sofia

És muito mais forte do que eu, Sofia.

Soube-o desde aquela tarde de 3 de Janeiro de 2004. Nove luas cheias antes de nasceres. Dez, porque naquele ano Agosto foi um longo mês.

Nesse mesmo dia fui a Almeirim. Olhei a mulher centenária num quintal com terreiro cimentado. E espaço guardado para crescerem três laranjeiras. Alheou-se do bolo com cem velas e das memórias de tempos difíceis de início de século para se debruçar no interior de mim.

E viu-te, tenho a certeza. Olhou-me com uns olhos profundos de quem já viveu mais que um século, de quem conhece os segredos das marés, as luas, a força que exercem sobre as águas e que faz inundar aldeias e secar searas.

Soube-o também no dia em que subi o dique de Valada. E quando tivemos o acidente e aceleramos pulsações e resistimos.

Soube-o agora, mais uma vez. Quando acordaste na maca do hospital e te abraçaste a mim.

Tu acordavas da anestesia. Eu quase adormecia por causa de ver um fio de sangue teu.

E foste muito mais forte do que eu, Sofia. Eu sabia.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Assim vou eu

No dia em que o meu patrão confidenciou ao mundo que fazia gazeta no escritório onde trabalhava há 30 anos pediu-me que trabalhasse mais. Foi há um ano.

Na crónica de hoje diz que tem dinheiro. E que por isso lhe custa falar desse material corruptível. Eu não o tenho, mas mesmo assim apetece-me mudar de vida.

Estou indecisa entre candidatar-me a um lugar de secretária num escritório de advogados e mandar um currículo para uma empresa de limpezas industriais.

Quero comprar um terreno no campo. De preferência com uma vereda e um chorão onde no Outono me possa refugiar num manto de folhas secas.

Quero comprar uma casa de madeira com uma parede e tecto de vidro – não me arrependo do que fiz, os erros ensinam a equivocarmo-nos com mais ponderação – e viver num t4 amplo e imperceptível.

Quero acordar de madrugada e ver a erva coberta de geada. Depois de adormecer a olhar a lua. Enevoada, repousando levemente sobre uma nuvem transparente. A esfumaçar. Como quem acaba de fazer amor.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Lezíria


Um púcaro de café ao lume
Apagado.

Debaixo da ponte
Um queixume.

Ao longe, um ligeiro cheiro a estrume
As couves cavadas.

Ferodo,
Cheiro do caminho-de-ferro em terra.

O ferreiro vem tarde
Tem as mãos calejadas de um espeto de pau.

Ligeiro, o campino
Corre atrás o menino, franzino.

Lezíria, grande
Como a fome dos que a amanharam.